4 de janeiro de 2015

Passagem das horas

É sempre mais doloroso para quem fica - você me disse um dia, em uma de nossas despedidas. Naquela vez, em especial, era você quem ficava enquanto eu seguia. Porém, na verdade, minha querida, para quem vai a dor também é intensa, entretanto, há as distrações efêmeras de cada novo tombadilho - solitário.




    Trago dentro do meu coração,
    Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
    Todos os lugares onde estive,
    Todos os portos a que cheguei,
    Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
    Ou de tombadilhos, sonhando,
    E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.


23 de dezembro de 2014

carta nunca entregue

-Sabe, estive lendo Sr. Gabo em Crônicas de uma morte anunciada. Há um trecho que me fez recordar a você - todas as cartas nunca respondidas. Semelhante a um monólogo, no qual a minha própria cabeça preenche os questionamentos, sorri, lamenta e diz sobre o que não foi dito na cara.
Em meio a uma enxaqueca lancinante vieram, concomitantemente, em minha face, um sorriso e uma lágrima quando lembrei-me de alguma coisa que você me disse. Foi um sorriso de uma saudade feliz e uma lágrima pela falta de nossas conversas e de nossas confissões sobre a vida. Pensei - em seguida - sobre como você poderá estar. Mais um fim de ano clichê, mesma época em que fico vigiando o email para, quem sabe, me deparar com uma mensagem sua. Ah, como é ingênuo o coração. Como é inocente ao alocar em espaço tão especial e destacado alguém que as consequências da vida não permitem que esteja presente. Tive vontade de enviar uma desprentensiosa mensagem ao seu correio eletrônico, só para saber de você - banalidades, corriqueirismo -, porém como carregaria em si inconscientemente todas as pretensões do mundo, achei, por melhor e por saber de resultados omissos anteriores, apenas manter o meu sorriso e a ilusão de que, em um mundo paralelo, estamos bem e falando sobre bolachas-da-praia. 
 
 
There's a whole 'nother conversation going on
In a parallel universe
Where nothing breaks and nothing hurts
There's a wltz playin' frozen in time
Blades of grass on tiny bare feet
I look at you and you're lookin' at me

30 de setembro de 2014

dez horas e 1/2

era domingo de setembro - usava coturno, uma blusa branca fina com gola em V, uma camisa preta desabotoada e com as mangas dobradas até o cotovelo, uma calça preta social. era ainda madrugada quando chegou ao destino. comeu, pegou um táxi. fez o que tinha que fazer: quatro horas e meia de teste. caminhou depois até um lugar a esmo daquele campus. sentia um calor insuportável, o céu estava nublado, porém a temperatura elevada dava a sensação de estar em uma panela de pressão seca. o seu celular estava com a bateria no fim. quase incomunicável. esperou mais um tempo até que pegou um ônibus vazio que em poucos minutos encheu de pessoas falantes e calorentas - sem saber exatamente para onde estava indo. a única pista era que a condução passava pela praia de Botafogo. pensou consigo que, de todas as situações ruins, ainda poderia pegar um táxi para a rodoviária - nada tão difícil.
tentou se localizar - olhava atentamente às placas com os nomes das ruas e indicações de bairros - tentava, também, relembrar algum fato da televisão para se situar. nada. de repente, estava no centro, logo no bairro de botafogo... um túnel ou dois, um prédio espelhado, uma marina... copacabana das novelas... uma feira hippie de ipanema - onde era o ponto final do ônibus. não teve escolha a não ser descer do coletivo. agradeceu ao cobrador as instruções e pensou, novamente, que nas piores das hipóteses ficaram com pena daquela turista - talvez estrangeira - com tantas roupas para aquela área da cidade. todos estavam com seus biquínis, roupas de banho ou tão à vontade em seus trajes pequenos que poderiam deixar alguém chocado ou apenas extasiado. as pessoas daquele lugar eram realmente bonitas - não por suas belezas físicas, mas pelas energias que emanavam de si. praticavam esportes no calçadão, brincavam, conversavam, admiravam a beleza da praia... sentiu que não fora percebida como uma total perdida - a sensação de estar como uma estranha no ninho não foi tão ruim. observou por pouco tempo as pessoas. queria sair dali, de qualquer forma. caminhou um pouco e saiu da orla. perguntou informações sobre ponto de ônibus. esperou por pouco tempo até o próximo. entrou em um 128, pagou a passagem, sentou-se do lado direito, próximo à porta de desembarque. olhou atentamente as placas e as pessoas que entravam muitas vezes sem pagar a tarifa. sem que esperasse, quase foi testemunha de um atropelamento, fitou uma velhinha que fechara os olhos enquanto o ônibus passava velozmente por um túnel. sentiu uma lágrima teimosa insistir em descer pelo o seu rosto quando passou por um ponto, na av. pasteur, que trouxe lembranças boas de uma pessoa querida. viu quando se surpreendeu ao encontrar o endereço que deveria ter ido se não estivesse ficado "perdida": rua rio branco, 241; festival de cinema, sessão das 14:30. estava atrasada cerca de uma hora. agradeceu ao destino a oportunidade atrasada de assistir ao filme, mas recusou. trocou a passagem para às 16h - impediu que uma lágrima caísse, respirou fundo e seguiu viagem.

1 de abril de 2014

cachorro bobo

Settle down with me

Cover me up, cuddle me in
Lie down with me, yeah
And hold me in your arms
And your heart’s against my chest
Your lips pressed to my neck [...]
I’m in love now

-então... o que você pensou...
-é engraçado... eu estava lá tentando não tropeçar - você sabe bem que eu não sou a pessoa mais equilibrada do mundo - pensando em como não aparecer com aquela cara feliz, sorridente... como se eu não tivesse esperado o mês inteiro por aquele momento... estava realmente tentando me concentrar... em como fazer tudo apresentavelmente, sabe como é? chegar lá, esticar os braços, oferecer um aperto de mão e dizer: "olá, como vai?"... mas não, não foi bem assim... eu estava lá tentando concentrar, como já disse... tentando agilizar o caminho, pegando o taxi, conversando com o motorista, tentando me localizar e compreender aquele tanto de gente indo e vindo, suando por dentro daquela roupa tão inapropriada para aquela cidade quente, sabe, o rio de janeiro... tentando não trombar nas pessoas e andar rapidamente... tentando achá-la em algum lugar, que o número da rua aparecesse logo... mas ai... bem... ela apareceu há alguns metros de mim e eu tentei não sorrir muito, não parecer tão atrapalhada quanto sou... sabe, postura... mas e ai... bem... ela apareceu e me tirou a concentração... aquela camisa que usava destacou o seu rosto, o seu corpo... e eu só consegui sorrir e tentar abaixar o rosto para não parecer mais idiota do que um cachorro feliz... mas como poderia fazer? eu olhei para ela... e a camisa daquele jeito realçou ainda os seus olhos, os cabelos lisos - presos daquela maneira despretensiosa, mas que não, na verdade, tinham toda a pretensão possível - e eu só conseguia pensar "wow, como ela é bonita"... tentei também pensar em coisas inteligentes para dizer, tentei não gaguejar, tentei me desviar... me segurei ao máximo para simplesmente não dizer o quão bonita ela é... e em quanta saudade eu senti... fiquei lá falando, falando... falando como é bem típico da minha pessoa quando estou... bem, quando estou nervosa... com aquele frio na barriga de revê-la tanto tempo depois... sabe, pretendi ser uma pessoa racional... mas como poderia fazer isso enquanto aqueles olhos me fitavam, bravos e radiantes, quem sabe inquietos pela minha demora... aquele jeito conhecido, bravo, inquieto que quanto mais assim fica, sempre mais vontade de tê-la por perto eu sentia... ela que havia sido por valiosos meses a pessoa mais importante do mundo para mim (e talvez... bem).. mas eu não pude estender os braços e oferecer um aperto de mão... é não funcionou assim... ela se moveu em minha direção e antes que toda a racionalidade que tentei ensaiar pudesse aparecer... ela me abraçou... eu senti as pernas cederem, mas me mantive... concentração... sim, tem que manter a concentração... e eu tentei, bravamente... embora por dentro todas as minhas células sorriam como um cachorro bobo e feliz... 

10 de fevereiro de 2014

máquina voadora

-você chorou por vinte minutos, no aeroporto, aquele dia... você sabe, na volta...
-sim... chorei. precisava desabafar.
-mas por que?
-porque eu não sei ainda para onde voltei, o motivo para voltar... estou seguindo - para frente, frente, frente - mas não sei para onde, não vejo nada por lá... está tudo vazio.
-como foi voltar? talvez justifique não ver nada à frente.
-voltar foi... foi overwhelming - revi todos os anos, mas não me atingiram. se bem que...
-o que?
-revê-lo... mas não quero falar sobre isso... não posso. é um bom amigo. ele estava diferente - digo, não diferente de tudo... o abraço apertado continua o mesmo... mas ele estava de cabelos no estilo exército... tão diferente do que já tinha visto... mas não conseguimos conversar nada além do trivial: tem feito calor e novamente sobre a terra do pai, bem ao sul... na verdade, não importa. nos despedimos. como duas pessoas que nunca mais poderão se ver. foi, no mínimo, estranho... doeu.
-é a única coisa que você ainda não compreendeu.
-se quiser dizer assim, fique à vontade...
-e agora?
-seguir - frente, frente, frente. com o que não tenho... sozinha. é estranho não ter mais o suporte daquela desculpa de ainda não ter terminado a faculdade... é como, bem, sair da adolescência e não poder falar que fez tal idiotice por ainda ser adolescente... é ruim... é ruim ainda pensar que posso consertar as coisas. é péssimo ter essa distância - está tão longe hoje - o motivo pelo o qual vim para cá... e agora, o que eu faço?
-para frente, frente, frente... próximo porto. desta vez, vá sozinha... você já foi sozinha antes... você consegue...
-sim, eu já fui... e se agora... e se agora eu não quiser ir sozinha? é ela, sabe...
-sei... mas é outro caminho...



20 de janeiro de 2014

nada bom

-nós sempre achamos que vocês eram tão apaixonados...
-quando? vocês estão loucos?
-não... eu e as meninas sempre achamos isso. quando vocês estavam pra baixo e pra cima na faculdade...
-não, não estávamos apaixonados... estávamos nos usando para sair de nosso próprio vazio.
-como assim?
-sim, ele mesmo me disse, anos depois...
-mas e você?
- aparentemente, fiz o mesmo acreditando ser outra coisa... mas eu não me lembro dessa paixão toda que você e outros dizem ter visto... eu só lembro do eterno looping de descaso de ambas as partes... só me lembro de ter dado um soco na parede e ter gritado: nunca mais.
-mas pode ser isso agora... só porque você já está com outra pessoa.
-sim, mas eu não me lembro de algo bom... mas como você disse, eu segui... mas se tivesse sido diferente, teria guardado um sentimento pelo menos ok por tudo aquilo... eu só sinto, ah para os infernos, eu não me recordo de coisa alguma. isso é ok?
-sim, eu acho que sim. fingiram bem.

11 de janeiro de 2014

you got get up and TRY

-você se pergunta o que ele tem feito, certo?
-sim, claro... em como tudo que tivemos se tornou mentira... só que eu sei que é melhor nem perguntar os motivos... porque eu sei... eu sei que onde houver uma chance, um desejo... haverá uma chama... e onde estiver esta chama alguém estará sujeito a se queimar... mas eu aprendi, sabe...
-que só porque você se queimou, não quer dizer o fim? ou que você morrerá? e que você tem que se levantar e continuar a tentar?
-exatamente... e parece engraçado como o coração pode se iludir tão facilmente, mais de algumas vezes? se apaixonar mais de uma vez, mesmo quando não é certo?
-é... isso não é tão engraçado...
-é sarcástico... talvez... se apaixonar assim, mesmo quando não é o melhor...
-sim... se há desejo, há uma chama... se há uma chama, alguém se queimará... mas temos que tentar? somos obrigados a tentar... sempre se pergunta se está realmente arruinado?
-sim.. eu sei que está
-tem vontade de chorar?
-todas as vezes que lembro... ou seja, todo o tempo que respiro - ou quase isso.
-é por isso que tem feito o que tem feito? se quebrado de todas as formas? se ocupado tanto?
-sim, estou apenas... bem, apenas tentando passar por tudo... como dizem: superando.
-mas ainda há o desejo, há a chama?
-não... não sei... há fumaça e eu me queimei...
-sim, você tem que se levantar... e tentar... sim, é isso... você sabe bem